"Foca"da

Pondo a verdade em foco

Marselhesa de 1968

Pra não dizer que não falei das flores

O livro escrito pelo jornalista Zuenir Ventura, “1968: o ano que não terminou”, é dividido em quatro partes. Traz 285 páginas de reconstituição do cenário das lutas e paixões pela liberdade civil, e as datas mais relevantes desse ano que ainda simbolizam o fracasso de uma batalha inglória que culminou com a edição do malfadado AI-5.O livro instiga a imaginação do leitor e restaura imagens de momentos inesquecíveis, como a Passeata dos 100 mil, a Sexta-feira Sangrenta, a morte do estudante Edson Luis e os momentos que antecederam o AI-5, quando finalmente “cai o pano” de um pretensioso governo.

O enredo é construído com humor negro, pois muitos dos relatos seriam críveis somente em livros de ficção, tamanha a distância deste “tempo negro” em que tudo era provável e capaz de ocorrer, da atual realidade democrática do Estado de Direito existente em nosso país. As declarações e lembranças de personalidades enriquecem o desenrolar da história como, por exemplo, Sobral Pinto, Vladimir Palmeira, Carlos Lacerda, Fernando Henrique Cardoso, Ziraldo, Juscelino Kubitschek e Nelson Rodrigues assim como o próprio autor do livro.

Dando o tom de veracidade que leva o leitor a reviver a história, está a utilização de tiragens de jornais e revistas da época como Veja, Correio da Manhã, Jornal do Brasil e a coluna de Carlos Castello Branco, como, peças que ajudam a remontar aquele período de nossa história, narrada com primazia pelo jornalista, e ainda trechos de livros como “A festa”, primeiro romance a tratar dessa década, de Ivan Ângelo.

A narrativa é adornada por músicas de Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano. Não esquecendo Geraldo Vandré, com a famosa música “Pra não dizer que não falei das flores”, hino entoado por multidões entaladas com gritos de indignação presos em suas gargantas. Nas palavras de Millôr, Geraldo Vandré “é o autor da nossa Marselhesa, o nosso autêntico hino nacional”.

Mas nem tudo foram flores. Pessoas foram torturadas, mortas, em nome do que acreditavam ser certo. A realidade foi muito mais do que uma rebeldia de jovens à procura de seus direitos. Foi uma guerra instaurada pela censura camuflada contra o povo brasileiro.

Os jovens, personagens principais da “história” se baseavam em pensadores como os “3 M de 68”: Marcuse, Marx e Mao, além deJames Joyce, Hermann Hesse, Debray, Guevara entre outros. Expressavam os sentimentos que afloraram em meio a uma comoção popular muda, na tentativa vã de impostar voz àquilo que brotava frente às injustiças praticadas contra os direitos civis. O livro conta com uma inúmera quantidade de detalhes, que preenchem as lacunas da história, como documentos da CIA nunca publicados antes.

Nas vésperas da instituição do AI-5 os meios de comunicação já eram vítimas da censura. Sinônimos de poder, eram um dos principais alvos da restrição à liberdade. Várias redações foram invadidas, buscando calar a verdade aos pobres e desvalidos brasileiros, desnutridos de informações sobre o que realmente estava acontecendo nos bastidores da ditadura militar.

Citando Eric Hobsbawn, “a impressão é de que 68 pode ter sido planejado para servir como uma espécie de ponto de referência histórico.” Em todo o mundo, foi um ano de insatisfação, mudanças e rebeldia, um ano que ainda não terminou pois suas lições permanecem atuais e concretas até os nossos dias. Como disse Zuenir, “a história do ano acaba aqui. Na verdade, era apenas o começo. 1968 entrava para a História, se não como exemplo, pelo menos como lição.”

Este é, com certeza, um livro para ser perpetuado e lido pelas gerações que pretendem conhecer o âmago dos acontecimentos daquele ano, a partir das experiências de estudantes, filósofos, intelectuais, e artistas, o que eles estavam sentindo e pensando a respeito de um regime militar que deixou marcas indeléveis na história da sociedade brasileira.

VENTURA, ZUENIR; 1968: o ano que não terminou; apresentação de Heloisa Buarque de Holanda. – 3. Ed. – São Paulo: Editora Planeta Brasil, 2008.

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