"Foca"da

Pondo a verdade em foco

Entrevista com Salomão

Em entrevista cedida no dia 19 de junho de 2009 o professor de jornalismo, José Salomão David Amorim, analisou o papel da grande mídia diante da farra das passagens aéreas.

Foca: O que você acha que tem a ver o Sarney ter entrado como presidente do Senado recentemente e esses eventos todos estourarem durante o mandato dele? Existe alguma influencia lá dentro, algum grupo que é contra ele nesse momento ou não há conexão?

Salomão: Eu acho que pode ter, fala-se, por exemplo, que nesse processo todo, nessas coisas todas que estão acontecendo haveria o dedo do senador Tião Viana que é do PT e disputou com o Sarney a presidência do senado, então que a turma do Tião Viana,que se não me engano ele senador pelo Acre estariam atrás disso. Mas paralelamente a isso também eu acho que há um problema de rivalidades de grupos de funcionários dentro do senado que podem também ter contribuído para essa coisa ir aparecendo né, porque um dedava o outro porque se considerava prejudicado em seus interesses o outro grupo também por sua vez, jogava lama no outro, então essa foi uma coisa que pode ter contribuído. Quanto a imprensa eu tenho impressão que a imprensa nesse caso não teve um propósito deliberado de, enfim, ser contra o Sarney. Não houve um propósito deliberado nesse sentido por parte da imprensa mas acho que a imprensa pode agir com bastante independência cumprindo seu papel, que inclusive não foi apenas de registrar irregularidades que apareciam, ou seja, irregularidades que apareciam por serem denunciadas por alguém mas também de investigar ela própria irregularidades. Então a imprensa agiu de uma forma bastante satisfatória até certo ponto, até certo ponto.

Foca: Existe algum interesse visível do governo em ter esse escândalo em torno do congresso ao invés do governo ser pauta de investigação?

Salomão: Não eu acho que existe o seguinte: por parte do governo como esse escândalo envolve o PMDB o interesse do governo é que isso não aparecesse da forma como está hoje. Tanto que o Lula outro dia falou que o Sarney não pode ser visto como um homem comum. Coitado do Lula que infelicidade! Infelicidade total. Tanto que eu me pergunto, por quê que até agora essa coisa toda não levou a um movimento de rua e talvez não tenha levado porque  a CUT (Central Única dos Trabalhadores), poderosa, apóia o Lula. E o Lula não quer que essa coisa evolua para uma crise com o PMDB porque conta com o PMDB nas eleições e como base de apoio dele no congresso para fazer seu projeto de governo.

Foca: E qual foi o motivo principal da mídia focar nisso ao invés de outras coisas que ocorriam no senado?

Salomão: Porque isso é muito grave e não estava acontecendo mais nada no senado. A pauta do senado, a pauta de assuntos importantes, parou e tudo se centralizou na crise. Agora, eu acho que a mídia foi bem até certo ponto. Foi bem satisfatória. Onde é que ela falhou pra mim? Para mim ela falhou na seguinte coisa, ela deixou de fazer algumas perguntas importantes, uma delas: Há no senado uma crise – ela deveria levantar um debate sobre se é preciso haver senado no Brasil – esse deveria ser um debate com a sociedade, o senado não está em crise? Não tem 10 mil funcionários para atender 88 senadores? Isso é um absurdo, uma estupidez. Então vamos perguntar precisa dessa instituição no Brasil? E até levantar a hipótese de um plebiscito sobre isso para o povo se pronunciar. Ninguém nunca tratou sobre isso na grande mídia. Ninguém nunca levantou isso. Suponhamos que se fizesse um plebiscito e o povo respondesse: Não, não precisa disso não. Aí encerrou tudo, acaba com o senado. E se o povo falasse: Não, precisa. Você tem então que fazer o seguinte: tá certo, o povo quer que continue a existir, então vamos reformar a instituição. Mas quem que vai reformar? Aí é outra questão importante. Não podem ser esses ilustres cidadãos que lá estão, porque eles não dar um tiro no próprio pé, eles não vão violentar seus interesses, seus interesses corporativos. Então como vamos fazer? Vamos fazer o seguinte, vamos convocar uma assembléia exclusiva. Isso é importante. Se chamaria assembléia exclusiva para a reforma do senado. O povo vai eleger senadores para fazer a reforma, certo? Agora nessa reforma os eleitos não poderiam ser caras desses partidos aí não, entende? Porque tudo é uma mesma panela. Teriam que ser o que nós chamamos de candidatos avulsos. Qualquer cara pode se candidatar entende? Partido, fora com partido. Porque não atende interesses de partido, porque é tudo uma máfia também. Bem, então elegeu, essa assembléia exclusiva vai fazer a reforma do senado, a reforma política que nós precisamos que nunca foi feita e nem será em curto prazo, nem a médio, sabe deus lá quando, sabe lá deus se, né. Então essa assembléia fez a reforma ela também acaba, o mandato desses caras é só para fazer a reforma. Aí então nós vamos eleger um senado novo. Isso é o que eu penso. A imprensa nunca debateu nisso, eu acho que são questões absolutamente importantes e deviam ser debatidas, porque a imprensa acaba ficando nesse negocio: ah! Eles tão propondo lá que o novo diretor seja um cara de fora do senado. Isso tudo é pouquíssima coisa diante do problema que nós temos. Nós temos um problema de fundo que envolve uma reforma muito mais profunda do que as coisas que estão se propondo aí. São titicas. E as aposentadorias? E pensões de viúvas que ficam?

Foca: Como você acha que essas noticias a respeito do congresso são vistas pela população?

Salomão: Eu acho que a sociedade hoje, em relação a classe política, ela revela no fundo um desprezo profundo, total. Então muitas vezes diante dos problemas que as pessoas têm no dia-a-dia, elas pra não terem raiva preferem mergulhar no seu trabalho, no seu dia-a-dia e não tomar muito conhecimento não. Mas a imagem das instituições políticas no Brasil hoje é a pior possível, particularmente, da Câmara e do Senado. Então eu acho que as pessoas estão agindo de certa forma assim. Elas só sairiam desse comodismo e dessa indiferença, que é uma atitude muito natural nas pessoas quando elas se sentem impotentes pra modificar as coisas se houvesse realmente uma liderança que levasse o povo as ruas e a um movimento de mudanças.

Foca: Quais foram os caminhos que você pode observar que foram apontados pela mídia para resolver esse problema? E se foram acatados pelo Congresso?

Salomão: A mídia está sempre batendo nesse negocio de ter uma reforma política, de tomar medidas de fundo ético contra esses abusos fantásticos que tem havido lá, inacreditáveis. Agora, ela tem batido nisso, mas até agora infrutiferamente né? Muito pouco se fez até esse momento e há muito ceticismo sobre o que se fará. Eu tenho a impressão que a liderança do Senado e as lideranças de senadores em grande número eles estão esperando que isso tudo passe, esperando uma oportunidade para entrar com outro problema em pauta outros problemas de tal forma que se esqueçam esse. Mas o problema está durando mais do que eles tão pensando.  É como uma mosca que está no seu nariz, você bate, bate, e ela volta você não consegue afastá-la. Precisava ser um Barack Obama para matar como ele matou outro dia.

Foca: No ponto de vista da história do congresso até hoje que relevância essa crise tem, vai deixar marcas?

Salomão: Eu não conheço a história para dizer se ela é a pior de todas. Eu sei que ela é muito grave. Agora, se ela vai deixar marcas, vai, mas eu temo muito que nossa memória cívica e política seja muito pequena e que as coisas tendem a se apagar com relativa facilidade. Então eu temo que essas marcas não durem demais e que já na próxima campanha política todo mundo incentivado pelo Tribunal Superior Eleitoral, pela mídia a cumprir seu dever de voto, seja no máximo lembrada pra que as pessoas votem bem. Mas estão votando bem há muito tempo né, bem entre aspas. E há uma coisa que vai além desse bem entre aspas, que precisa ser feita que são as coisas que eu mencionei aí atrás.

Foca: A mídia tem influencia na construção de uma verdade que é passada para a população a respeito dos parlamentares?

Salomão: Tem, tem uma influência. A mídia constrói a realidade. Ela constrói a realidade, ou seja, a representação da realidade que as pessoas têm é uma representação construída pela mídia. Correto? Então ela tem muita influencia. Além do mais a gente sabe que ela constrói uma agenda pra gente do que é importante do que não é, de que problema está sendo discutido como ele está sendo discutido, isso tudo é a mídia que nos dá. Eu não ousaria dizer que ela tem um efeito determinante. Ou seja, que eu entornando esse suco no jornal eu sei que destrói a folha do jornal as letras apagam. Ela não tem esse efeito determinante de que tudo que ela fala as pessoas aceitam isso é outra história. Tanto que, um exemplo recente na política está aí com o Lula, a mídia tentou desde o escândalo do mensalão, ela foi muito critica em relação ao Lula. O Lula passou incólume por todo esse bombardeio da mídia e hoje goza de índices de popularidades talvez que nenhum outro governante do Brasil tenha alcançado. Então ela não é determinante, ela tem muita influencia.

Foca: Você acredita que às vezes o congresso molda sua pauta de acordo com o que sai na mídia?

Salomão: Até certo ponto sim. A política hoje é pautada pela mídia, até certo ponto. A mídia hoje pauta muito a política, é muito comum hoje as pessoas no congresso terem um comportamento no plenário ou terem um comportamento em outros lugares do congresso ou outros lugares tendo em vista a possibilidade da mídia focalizá-lo, isso é muito comum. Outra coisa muito comum os próprios governantes sabendo que a mídia é influente sobre eles, eles às vezes tentam controlar a mídia.  Quando eles querem mostrar alguma coisa importante eles programam que essa coisa aconteça antes que o tele-jornal vá ao ar. Ou quando querem esconder o contrário, esperam o tele-jornal passar que não vai ter divulgação naquele dia. A política de certa maneira é controlada pela mídia. Campanhas eleitorais você vê isso nitidamente. As campanhas se envolvem na mídia de uma maneira tal que o político se adapte aos requisitos da linguagem da mídia. O espectador de televisão não tolera discurso, tem que ser uma linguagem coloquial. Não tolera coisa muito extensa, lega-lenga. Então o político tem que fazer frases curtas, de efeito, para transmitir seu pensamento. Isso na campanha política é assim.

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