"Foca"da

Pondo a verdade em foco

Quem controla o boneco de madeira?

A mosca que incomoda o nariz do Congresso


Pinóquio queria ser um menino de verdade e para isso tinha que ser bom e verdadeiro. Mas quando foi ao teatro de marionetes e mentiu sobre isso seu nariz começou a crescer. A fada azul deixou claro que toda vez ele que mentisse seu nariz cresceria, o que tornava evidente a inverdade. É uma pena o nariz do Congresso não crescer a cada mentira que conta. Isso com certeza seria um jeito mais fácil de identificá-las. Como isso não acontece fica como papel da mídia revelar essas imprudências cometidas pelo boneco de madeira.

O primeiro capítulo de uma série de episódios que compõem a crise do Congresso foi marcado pelo caso veiculado na grande imprensa a respeito da farra das passagens aéreas dos parlamentares. O desempenho da imprensa durante a cobertura do caso foi satisfatório, até certo ponto, segundo o professor de jornalismo, José Salomão Amorim, e a repórter da Folha Online na cobertura de política, Gabriela Guerreiro.

De acordo com a repórter da Folha Online, a mídia deveria manter a vigilância constante sobre temas de impacto popular que são explorados de maneira consistente no início, mas que perdem a força depois. Não há um acompanhamento. Não se tem mais informações sobre o desdobramento da farra e a conseqüência que isso trás. Justamente por aparecerem a cada dia novas descobertas de infrações envolvendo o Congresso.

A cobertura da imprensa durante o evento foi positiva, e “pode agir com bastante independência cumprindo seu papel, que inclusive não foi apenas de registrar irregularidades que apareciam, ou seja, irregularidades que apareciam por serem denunciadas por alguém, mas também de investigar ela própria irregularidades”, afirma Salomão.

Durante o período em que as passagens aéreas eram focalizadas pela mídia foram entrevistados para a Folha Online os integrantes da mesa diretora do Senado e da Câmara, além dos parlamentares com acusações mais escandalosas. Agora o que se investiga na mídia são os atos secretos: “A descoberta dos atos secretos –medida usada para criar cargos ou aumentar salários sem conhecimento público– foi o estopim da mais recente crise na Casa. Entre 1995 e 2009, o Senado editou 623 atos secretos”, de acordo com trechos publicados na Folha Online de 20 de junho.

A coincidência entre os eventos que criaram essa crise ao redor do Congresso se baseia na personagem do presidente do Senado, o Senador José Sarney. A relação feita entre: a eleição do Sarney e a crise instaurada se referem, de acordo com Guerreiro, a uma rivalidade entre certos grupos de servidores. Grupos pertencentes a setores do Congresso que se mobilizaram contra o senador com o interesse de vazar as informações relacionadas às passagens aéreas no intuito de desestabilizar a presidência do Sarney.

As notícias veiculadas sobre o Congresso tiveram um efeito negativo à imagem do legislativo. Nas gestões anteriores esses abusos não foram revelados. Os atos secretos, por exemplo, ocorrem há 14 anos. Mas só chegaram à imprensa agora. Segundo Salomão a liderança do Senado está esperando que isso tudo passe. “Mas o problema está durando mais do que eles pensam. É como uma mosca que está no seu nariz, você bate, bate e ela volta. Você não consegue afastá-la. Precisava ser um Barack Obama para matar como ele matou outro dia”, afirma o professor.

A crise que acontece no Congresso não tem relação com o governo. O governo, segundo Salomão, não tinha interesse que isso aparecesse da forma que está acontecendo em razão da necessidade do apoio do PMDB na casa para fazer seu projeto de governo e já pensando nas próximas eleições. “Tanto que o Lula outro dia falou que o Sarney não pode ser visto como um homem comum. Coitado do Lula que infelicidade!” elucida Amorim. Embora o governo saia beneficiado do episódio por não ser foco da fiscalização da mídia que só cobre o congresso.

O erro da mídia em relação à cobertura desse evento segundo Salomão foi deixar de abrir um debate sobre a necessidade de um Senado no Brasil. E a partir daí um possível plebiscito. A reforma do Senado, caso o povo dissesse que precisa sim, de um Senado, a partir de uma Assembléia exclusiva composta por pessoas eleitas exclusivamente para a reforma – candidatos avulsos. Algo que nunca foi debatido pela grande imprensa.

Isso evidencia que a crise é maior do que se coloca. O plebiscito proposto por Cristovam Buarque não foi sequer levado em consideração entre os parlamentares, que julgam ser um tiro no pé no momento de fragilidade pelo qual passa o Senado. Existem problemas que vão além das resoluções propostas, como o novo diretor ser alguém externo ao Senado. Questões como a reforma política não foram citadas. Suplentes que são escolhidos pelos senadores para substituí-los, ou seja, são nomeados senadores sem o voto do povo não foi questão vista com importância.

A mídia muitas vezes constrói a agenda das pessoas. Diz o que é importante, o que acontece no mundo, qual a relevância desses assuntos no dia-a-dia. Isso é proposto pela Agenda-setting da mídia que determinaria ao público sobre o que pensar, escolhendo as notícias e reagrupando-as hierarquicamente. O Congresso também é influenciado por esse agendamento, pois a mídia constrói a realidade, a representação da realidade é feita pela mídia. Mas, segundo Salomão, não tem efeito determinante.

Algo que não foi agendado pela Folha Online, de acordo com a repórter foi a questão das milhas de voos feitos por parlamentares. Mesmo as viagens em missões oficiais acumulam milhagens para os parlamentares. Isso é algo comum a todos os funcionários públicos que viajam a trabalho. Não existe um sistema das companhias aéreas que cadastre as milhas em nome do Congresso, ou qualquer outra instituição. Ela vai impreterivelmente ao passageiro.

Esse tipo de discussão não perdura na imprensa. E é inevitável que não haja essa cobrança. Cobrança que se demonstrou positiva ao que se refere às normas mais rígidas para a utilização das passagens pelos parlamentares, mas que teria sido mais enfática se viesse do povo. O problema é que a população brasileira se encontra em estado letárgico “deitada eternamente em berço esplêndido”, por não ter interesse em participar de discussões que na maioria das vezes não chegam à parte alguma. Por não serem ouvidos e atendidos.

O povo despreza a classe política e se torna indiferente ao perceber que não há o que fazer, quando se dá conta da sua impotência. Dia após dia a população toma ciência sobre os podres do Congresso. Dia após dia são expostos novos rostos da corrupção. A única solução para tirar a sociedade brasileira desse comodismo seria como Salomão disse: “se houvesse realmente uma liderança que levasse o povo as ruas e a um movimento de mudanças”.

Essa crise no Congresso ainda não levou a um movimento de rua segundo Amorim em razão da CUT (Central Única dos Trabalhadores) ser a favor do Lula e este estar em defesa do PMDB, ou seja, do Sarney. “Então eu temo que essas marcas não durem demais e que já na próxima campanha política todo mundo incentivado pelo Tribunal Superior Eleitoral, pela mídia a cumprir seu dever de voto, seja no máximo lembrada pra que as pessoas votem bem”, disse Salomão.

Outra coisa a ser posta em evidencia é: como a imprensa criticada pelo presidente Lula pelas revelações referentes à Sarney – agora que não há mais a obrigatoriedade do diploma para exercer a profissão de jornalista – se comportará em situações como está? Isso será determinado pelos donos de empresas de comunicação. E por fim: quem irá mostrar que o nariz do Pinóquio está crescendo?

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